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segunda-feira


Toda a riqueza do Oriente passava apenas por Portugal e ia fomentar o trabalho estrangeiro, que nos fornecia de todas as coisas. As enormes quantidades de dinheiro do comércio das Indias, de Malaca e do Oriente eram mal geridos, deficientemente orientados e, sobretudo, mal gastos. Em vez de um investimento no tecido produtivo do país optou-se por comprar ao estrangeiro o luxo que aqui se ostentava contribuindo para o desenvolvimento desses país.

Em vez de se investir na construção naval optou-se por alugar barcos... a particulares e ao estrangeiro. Em vez de se procurar vender os prudutos trazidos do Oriente pelos mercados europeus esprávamos que os viessem buscar a Lisboa. Em 1549 abrirá falência a feitoria portuguesa de Antuérpia. Portugal era apenas a placa giratória de todos os lucros da Rota do Cabo. Pegávamos na riqueza da Índia e íamos levá-la ao norte da Europa, à Flandres, à Holanda, à França e a Inglaterra. Na gestão do comércio e dos negócios do reino não constava a política de fixação de riqueza, o reinvestimento na criação e desenvolvimento das atividades produtivas manufatureiras, de construção naval, de desenvolvuimento agrícola.... Não admira por isso que passados apenas 30 anos estivéssemos em enormes dificuldades económicas e financeiras.
"As fomes sucediam-se e era necessário endividar-se a Coroa para comprar cereais no mercado da Flandres. (...) Pediam-se empréstimos ao estrangeiro a juros altíssimos. O país importava de Africa todos os anos, segundo diz um escritor, 338 000 moios de trigo e 670 000 de cevada. Em fins de 1543,deviam-se na Flandres somas enormes, além das que se tomavam em letras «a tão altos preços
que se dobra a dívida em quatro anos".
António Sérgio, Breve Interpretação da História de Portugal

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domingo

Lisboa no tempo de Camões





Ano de 1521. Inicia-se o longo reinado de D. João III. Portugal vive ainda a euforia das realizações marítimas, do tempo de D. Manuel, O Venturoso. D. João III surge como o continuador de uma política expansionista, para a qual lhe vão faltando as estruturas de apoio necessárias. O comércio era a grande base da economia portuguesa. No entanto, o país pouco produzia e, pelo contrário, aumentava a sua dependência quanto à prata que, originária da América do Sul, chegava à Espanha em enormes quantidades. Este metal cada vez se torna mais necessário para alimentar o comércio com o Oriente.
A ausência de empresas manufatureiras obriga Portugal à total compra de produtos, para os quais se fornecia a matéria prima, que vai chegando dos vários pontos do Império. Crises agrícolas sucessivas obrigam o país a importações praticamente anuais de trigo castelhano. E, assim, a economia nacional depende cada vez mais do comércio colonial.Todos estes problemas vão obrigar o Rei a abandonar várias praças africanas, de 1534 a 1540. O déficite vai crescendo. Apesar disso, o tipo de vida mantém-se com o mesmo luxo e riqueza.
A sociedade portuguesa, principalmente a classe nobre, vê-se na quase total dependência do rei. Do monarca depende para concessão de qualquer mercê, seja nobre ou mercador. Ao rei acorrem os povos a apresentar as suas queixas, nas poucas cortes que convoca. A coroa domina no campo comercial através do seu monopólio: é ela a maior proprietária. Desta interferência só se vai libertando o clero, pois constitui o apoio do rei para a efetuação da sua política absoluta.
D. João III orgulha-se de praticar o mecenato: em torno da sua corte evoluem as personalidades mais significativas do Renascimento português, como Garcia de Resende, Damião de Góis, Pedro Nunes. Lança-se na campanha reformista da Universidade, transferida de vez para Coimbra. Funda o Colégio das Artes.Mais tarde, a tendência religiosa e mesmo fanática de D. João III leva-o a perseguir personalidades de nomeada no ensino, que se mostravam abertas às novas ideias reformistas. Muitos foram entregues à Inquisição. Esta viragem na maneira de pensar real afasta da Corte os poucos espíritos renascentistas ainda existentes no panorama português. A Inquisição e o tratamento pouco acolhedor dado a muitos dos pensadores estrangeiros atraídos a Portugal pela fama da corte portuguesa não facilita a existência de muitos humanistas no país.
Ano de 1550. Portugal assiste ao findar do governo de D. João III e à impossibilidade de manter um império tão extenso.. Não podendo conservar o monopólio dos mares, desmoronam-se as bases com que o país se guindara ao primeiro plano, entre as nações europeias, em décadas anteriores. É assim o Portugal desta época: vivendo os restos de uma grandeza que se vai, girando em torno de uma corte cujo centro é um rei ilusoriamente mecenático.

Lisboa, capital do reino, cidade onde a corte vive e o povo sobrevive, é o centro das atenções de quem quer singrar. Para esta cidade vem um mancebo de ascendência vagamente nobre, mas de escassos recursos. Procura, como tantos outros, um emprego na corte e traz a cabeça cheia de trovas. Esse mancebo que, em 1550, atravessou o chamado Terreiro do Paço em direcção ao Paço da Ribeira, chamava-se Luís Vaz de Camões.
LINA FERREIRA PAZ, Luís Vaz de Camões ou A Universalidade de Um Pensamento (texto adaptado)